Em 1992, o Machine Head e o Stone Sour eram formados, o Metallica e o Guns N’ Roses
estavam excursionando por estádios nos EUA quando James Hetfield sofreu
queimaduras de terceiro grau em um acidente com a pirotecnia e Axl Rose
incitou um tumulto em Montreal. O Rage Against The Machine lançava seu auto-intitulado disco de estreia. O Nirvana vendia cerca de 300 mil cópias de ‘Nevermind’ por semana. E o Pantera mandou o ultrapesado VULGAR DISPLAY OF POWER.
Por Malcolm Dome e Jon Wiederhorn para a revista CLASSIC ROCK
Traduzido por Nacho Belgrande
Oriundo de Dallas, Texas, o PANTERA tinha começado como uma banda glam, iniciando suas atividades tocando covers de Kiss e Van Halen. Os três primeiros discos – ‘Metal Magic’, de 1983, ‘Projects In The Jungle’, de 1984, e finalmente ‘I am The Night’ de 1985 – eram essencialmente centrados no gênero ‘big hair’. Mas daí houve uma mudança radical.
Em 1987, o vocalista Phil Anselmo juntou-se aos membros fundadores [e irmãos] Diamond Darrell [guitarra] e Vinnie Paul [bateria], além do baixista Rex Rocker. Um ano depois, o disco ‘Power Metal’ apresentou a banda para o cenário thrash,
e isso foi levado a outro nível, quando depois de assinarem com uma
gravadora grande [a ATCO], o Pantera se reinventou com seu primeiro
êxito, ‘Cowboys From Hell’, de 1990. Nessa época, Rex Rocker tinha virado Rex Brown, e Diamond Darrell agora era Dimebag Darrell. O disco, acima de tudo, estabeleceu a reputação do Pantera como uma nova força na cena.
“Em ‘Cowboys From Hell’, nós conseguimos excursionar com
algumas bandas do caralho, como o Judas Priest, Exodus, Sepultura,
Suicidal Tendencies e Prong”, lembra Vinnie. “E
isso nos levou a outro patamar. Nós vimos nossa música arrebentar, e eu
acho que isso nos catapultou para o que fizemos em ‘Vulgar Display of
Power’”.
O que o Pantera faria agora, o sucessor de ‘Cowboys…’ foi construído a
partir do momento que aquele disco tinha sido sedimentado na imaginação
das horas do metal. Tal como o produtor Terry Date diz, “o Pantera queria fazer o disco mais pesado de todos os tempos”.
A banda escolheu gravar no Pantego Sound Studios, de propriedade de Jerry Abbott o músico e produtor country – pai de Vinnie Paul e Dimebag.
“Quando começamos a trabalhar em ‘Vulgar…’, Phil e eu achamos esses apartamentos bem vagabundos bem do lado do estúdio”, lembra Rex. “Fizemos um buraco na cerca, daí podíamos ir andando direto pro estúdio”.
“Rita [Haney, namorada de Darrell] também tinha um desses
apartamentos e Darrell e Vinnie ainda estavam na casa da mãe deles, mas
eles tinham carros, então podiam ir pra qualquer lugar. Eu e Phil
estávamos quebrados, então eu comprei uma bicicleta. Eu ia com ela até
essa loja de conveniência, e nós conhecíamos um cara que trabalhava lá e
separava cerveja e sanduíches para nós, pra que tivéssemos algo pra
comer quando terminássemos o trabalho todo dia”.
A banda estava tão ansiosa para fazer aquilo funcionar que até começou a trabalhar sem o produtor.
“Nós tínhamos [as faixas] ‘A New Level’, ‘Regular People
[Conceit]’ e ‘No Good [Attack the Radical]’ em demos antes de Terry
aparecer”, Vinnie diz agora. “Nós queríamos
adiantar as coisas. Nós já tínhamos até começado a trabalhar em cima dos
tons, e estavam muito bons, mas quando Terry apareceu, nós afinamos a
coisa pra valer”.
“Para nós, o Heavy Metal tinha que soar como uma máquina.
Então nós trabalhamos duro para que fosse como uma serra abrasiva. A
guitarra tinha que ter o som de uma motosserra, e a bateria tinha que
ter uma certa pegada, e eu lembro de Dime e Terry passarem muitas,
muitas horas fazendo isso muito meticulosamente para que as guitarras
pegassem ‘na veia’, como eles diziam. Uma vez que acertamos tons e
timbres, nós três escrevíamos a música durante o dia e daí Phil vinha do
apartamento dele e ouvia algo. Daí ele dizia, ‘Porra, cara isso é muito
do caralho’. E daí a gente dava um tempo e ia pra algum buteco, e daí
voltávamos pra ouvir o que Phil tinha feito em cima. Nós trabalhávamos
juntos, como uma equipe, e tínhamos essa mentalidade de ‘um por todos,
todos por um’ pra valer mesmo”.
Mas isso era o Pantera, e enquanto eles trabalhavam com foco e
energia, eles também partilhavam do mesmo senso de comprometimento.
“Nós costumávamos jogar esse jogo chamado ‘Chicken Brake’”, diz Vinnie, “Onde
você do nada puxava o freio de mão e o carro dava essa baita cantada de
pneu. Certa noite, nós pegamos o carro alugado de Terry e estávamos
andando pela rodovia numa baita chuva, e do nada, Rex acha que seria
engraçado brincar de ‘Chicken Brake’, e eu estava a uns 95km/h e quando
ele puxou, o carro virou 360 graus várias vezes e daí parou bem no meio
da pista. Um olhou pra cara branca do outro e pensamos, ‘Ok, isso não
aconteceu’ e fomos em frente”.
“Mais tarde naquela noite, saímos para beber, e enchemos a
cara e despirocamos na volta e passamos por cima de todas as caixas de
correio do caminho, eu não sei como não fomos pra cadeia ou não fudemos o
radiador! Mas paramos na frente do estúdio. E Terry sai e vê os faróis
do carro dele estourados, a frente toda do carro estava amassada, havia
vapor saindo do motor. E ele nunca gritou com a gente como ele gritou
naquela noite. Ele berrava, ‘Cara, eu vou ter que pagar por isso e a
porra da gravadora vai me pôr na rua!’. E a gente só dizia, ‘Cara,
sossega. A gente vai fazer dinheiro com esse disco pra poder pagar.’”.
Aos dois meses de gravação, a banda recebeu uma oferta que não poderia recusar – a oportunidade de abrir para o AC/DC e Metallica na Rússia. Eles pularam na chance, e aquilo provou ser um triunfo.
“Nós entramos no palco às duas da tarde, e era com certeza o palco mais inacreditavelmente enorme que eu já tinha pisado”, exclama Phil Anselmo. “Olhar
pra plateia chegava a cegar. Não era uma plateia, era uma porra dum
oceano. Mas não pegou nada e quando tomamos o palco, a gente matou. Nós
éramos uma porra duma máquina, estávamos prontos pra guerra e estávamos
trazendo-a até você”.
“Voltamos de avião pra casa e entramos no estúdio com
mais gana, e a música simplesmente sangrava de nós. Eu estava no maior
pique que já estive. Quando eu escrevi letras como, ‘A New Level Of
Confidence and Power’ era verdade, cara!”
“Uma de nossas atividades favoritas no estúdio era esse jogo chamado ‘Twist and Hurl’”, acrescenta Vinnie. “Você
pegava uma garrafa long neck de cerveja e virava duma vez, e daí você
tinha que dar um giro no seu próprio eixo e tacar o casco nessa placa de
‘PARE’. Se você acertasse, você ganhava. E a gente fazia isso toda
noite. A gente bebia uma cara dessas cervejas, então tínhamos munição. E
daí uma noite estávamos fazendo isso, e daí essas luzes se acenderam em
meio às árvores e havia tipo, cinco policias prontos para nos prender.
Eu não sei como a gente enrolou eles pra não irmos!”
A ideia do título do disco veio de Phil, apesar dele ter demorado um
pouco para perceber que ele tinha tirado o nome de uma frase de [o
filme] “O Exorcista”.
“A frase ‘Vulgar Display of Power’ grudou em mim e não me
dei conta de onde ela tinha vindo até mais tarde. E daí eu pensei, ‘Ah,
é do ‘Exorcista’! ‘Boa frase, William Peter Blatty [que escreveu o livro e o roteiro].”
“Nós dissemos a nossa gravadora que queríamos uma foto de
algo vulgar, como um cara tomando um murro na cara. Daí o selo nos
mandou a primeira versão da capa, que era um boxeador com luvas, e
dissemos, ‘errado, cara te que ser algo de rua’. Eles acertaram com a
segunda versão. Uma das pessoas na gravadora nos contou que esse cara
recebia 10 dólares por soco, e foram precisos 30 socos pra valer na cara
dele para conseguir a imagem perfeita.”
O disco foi lançado em 25 de Fevereiro de 1992, e foi o primeiro do
Pantera a entrar nas paradas, chegando a #44 nos EUA, onde já vendeu
mais de 2 milhões de cópias. No Reino Unido, o álbum chegou a #64, e
vendeu mais de 100 mil cópias. O Pantera tinha finalmente se tornado uma
força significante no Metal no sentido mais amplo possível.
Vinnie diz: “Estar no palco e tocar músicas como ‘Walk’,
‘Mouth For War’ e a porra de ‘Fucking Hostile’…caralho, mano. Aquilo era
um manifesto poderoso. A agressão, a intensidade, a emoção crua e
sangrenta daquelas músicas se conectava com o público de um modo
perigoso. Nós nos acabávamos tocando elas, porque elas eram as mais
reais pra nós e eu acho – não eu SEI – que as pessoas sabiam que éramos
pra valer.”
Logo esse álbum se tornaria um dos discos de Metal mais icônicos e
inspiradores de todos os tempos. Um totem pra tudo que aconteceu desde
então.
Ninguém tem mais noção disso do que Phil Anselmo, que olha com uma
reverência próxima do espanto para o que ele ajudou a construir.
“Quando fizemos ‘Vulgar Display of Power’, eu nunca
disse, ‘OK, eu quero fazer um disco pra ficar na história.’ Claro,
queríamos estabelecer metas pessoais e nos satisfazer, mas eu acho que
eu ainda estou descobrindo o impacto que o álbum teve.”
“Duas gerações se passaram desde então, e tantas
variações de música vieram e se foram. E eu ainda vejo garotos de 14 a
20 anos fanáticos por Pantera, porque os pais deles eram fanáticos por
Pantera, e é isso que eles escutavam pela casa. E eu ouço muitos riffs
do Pantera em muitas das bandas de hoje e de ontem também. Quando isso
começou a acontecer, eu acho que foi quando eu me dei conta do impacto
que tínhamos causado.”
E esse impacto ainda ressoa século 21 adentro.
O Capítulo Seguinte
Se ‘Vulgar Display of Power’ tinha sido um pico assustador, então o que veio a seguir em 1994 foi um sucesso maior ainda.
O disco seguinte da banda, ‘Far Beyond Driven’, estreou em #1 nas paradas estadunidenses. O Pantera até recebeu uma indicação ao Grammy pela faixa ‘I’m Broken’. Mas as coisas começaram a dar errado.
O quarteto tocou no [festival] Monsters of Rock em
Donington, em 1994, e semanas depois, Phil foi acusado de agressão,
depois de bater num segurança que tentava impedir que fãs subissem ao
palco.
Em 1995, o uso de heroína e álcool por parte de Phil tinha ficado tão
exacerbado que criou uma fenda irreversível entre ele e a banda. Um ano
depois, ‘The Great Southern Trendkill’ enfatizou o crescente
golfo entre o vocalista e o grupo. Enquanto os músicos gravaram em
Dallas, Phil fez todos seus vocais no estúdio de Trent Reznor em Nova
Orleans. Ainda assim, o álbum chegou a #4 nas paradas dos EUA e alcançou
as mesmas vendagens de ‘Far Beyond Driven’.
Entretanto, quando o cantor teve uma overdose de heroína em junho de
1995, o resto do grupo ficou chocado. Seu comportamento continuamente
errático tornou a relação ainda pior.
O disco ao vivo ‘Official Live: 101 Proof’ colocou panos quentes em tudo, conseguindo um respeitável #15 nas paradas dos EUA, mas depois do lançamento de ‘Reiventing The Steel’
em 2000, a banda parecia estar nas últimas. Apesar de ter chegado ao #4
das paradas, as vendas estagnaram em apenas 500 mil discos – e dentro
de um ano, o álbum estava basicamente fritado.
Uma turnê europeia foi limada no meio devido à 11/9 e os planos para outro disco de estúdio foram postos de lado.
O Pantera se separou oficialmente em 2003, em meio a acusações e
recriminações. O chocante assassinato de Dimebag Darrell em dezembro de
2004 significa que jamais veremos a banda de volta ao palco em toda sua
glória.
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